Coluna da Vitória de Berlim: história, arquitetura e símbolos da Siegessäule

- Nome local
- Siegessäule · Goldelse (estátua)
- Tipo
- Coluna comemorativa
- Continente
- Europa
- País
- Alemanha
- Região
- Berlim (cidade-estado)
- Distrito / bairro
- Mitte · Ortsteil Tiergarten
- Localização
- Großer Stern 1, 10557 Berlim
- Nomes históricos
- Siegessäule; Goldelse designa a estátua
- Períodos históricos
- Império Alemão; transferência nazi; pós-guerra e Berlim contemporânea
- Arquiteto
- Johann Heinrich Strack
- Escultor de Vitória
- Friedrich Drake
- Inauguração
- 2 de setembro de 1873
- Transferência e ampliação
- 1938–1939
- Altura
- Aprox. 67 m atuais; aprox. 60,5 m originais
- Altura da estátua
- Aprox. 8,3 m
- Degraus até ao miradouro
- Aprox. 285
- Data
- Junho 2024
- Fotografia
- Autorretrato
- Publicado
- 11 de agosto de 2025
- Revisto
- 7 de novembro de 2026
- Coordenadas
- 52.5145, 13.3501
- Mais
- Wikipedia
Uma figura dourada ergue uma coroa sobre as árvores do Tiergarten. Vista de longe, a Coluna da Vitória parece um emblema inequívoco de Berlim. De perto, a sua história torna-se menos linear: os relevos conservam mutilações, o fuste é mais alto do que em 1873 e o local não é aquele para que foi concebida.
A Siegessäule, no centro do Großer Stern, permite acompanhar várias transformações da Alemanha num único monumento. Nasceu para celebrar vitórias prussianas; o regime nazi transferiu-a e ampliou-a; o pós-guerra discutiu a sua sobrevivência. Mais tarde, a vida pública de Berlim acrescentou significados que os promotores não teriam previsto. Compreendê-la exige olhar tanto para o que representa como para aquilo que lhe aconteceu.



O que é a Siegessäule e onde se encontra
A Coluna da Vitória é um monumento comemorativo do século XIX situado no Großer Stern, a grande rotunda do Tiergarten, no distrito berlinense de Mitte. O nome alemão significa literalmente «coluna da vitória». A escultura no topo representa Vitória, deusa romana do triunfo, embora os seus atributos também remetam para o Estado prussiano.
Hoje mede aproximadamente 67 metros, face aos 60,5 metros da configuração original. A diferença resume uma questão central: o que vemos combina uma obra do Império Alemão com alterações do século XX. A silhueta é familiar, mas não pertence a uma única data.S1
Três guerras para construir uma narrativa de unidade
1864: da vitória sobre a Dinamarca ao projeto monumental
A encomenda surgiu depois da guerra de 1864 entre a Dinamarca e a aliança da Prússia com a Áustria, relacionada com os ducados de Schleswig e Holstein. Essa vitória forneceu o motivo inicial para erguer uma coluna em Berlim. Johann Heinrich Strack começou a desenvolver o projeto quando ainda se pretendia comemorar aquele conflito específico.
A escolha de uma coluna pertencia a uma linguagem política reconhecível. Desde a Antiguidade, altura, pedestal e escultura superior apresentavam o poder como algo destinado a dominar o espaço público. O projeto prussiano reutilizava essa tradição para contar uma história recente.
1866: a Áustria passa de aliada a adversária
Dois anos depois, Prússia e Áustria enfrentaram-se pela hegemonia no mundo germânico. A vitória prussiana, cujo episódio decisivo foi Königgrätz ou Sadowa, reforçou a posição de Berlim e deixou a Áustria fora da solução imperial posterior.
A coluna incorporou esta segunda guerra no programa comemorativo. A mudança importa: o monumento não ilustrava um plano político imutável. O significado cresceu durante o desenho, acompanhando os conflitos e as ambições do Estado que o financiava.
1870–1871: a França e a proclamação do Império
A Guerra Franco-Prussiana acrescentou a terceira vitória. Em 18 de janeiro de 1871, Guilherme I foi proclamado imperador alemão na Galeria dos Espelhos de Versalhes. A unidade celebrada pela coluna era uma unidade sob liderança prussiana, com a Áustria fora do novo Império.
A inauguração teve lugar em 2 de setembro de 1873, aniversário da batalha de Sedan. A data ligava expressamente a cerimónia ao triunfo sobre a França. As três secções originais do fuste remetiam para os conflitos depois conhecidos como guerras de unificação.S2
Essa designação descreve o seu papel político sem tornar o processo inevitável ou inofensivo. A coluna seleciona uma interpretação: transforma vitórias militares numa história de legitimidade nacional. O leitor pode reconhecer este argumento sem o aceitar como explicação neutra da história alemã.
Arquitetura: organizar a representação do poder
Strack e a tradição das colunas comemorativas
Johann Heinrich Strack articulou uma composição ascendente: um pedestal imponente, uma sala circular rodeada de colunas, o fuste e a figura dourada. O olhar passa das cenas narrativas da base para uma alegoria elevada acima da cidade.
A referência clássica não implica uma cópia literal de uma coluna romana. A obra participa numa tradição europeia de monumentos militares, como a Coluna Vendôme, em Paris, ou a Coluna de Nelson, em Londres. Em todos estes casos, uma estrutura vertical transforma a memória de um conflito num ponto dominante da paisagem urbana.
Em Berlim, a operação relacionava monarquia, exército e nação. A arquitetura não se limitava a sustentar uma estátua: organizava a forma de olhar para a narrativa política.
Granito, fuste e artilharia dourada
O pedestal revestido de granito vermelho contém os relevos de bronze. Acima, a colunata permite aproximar o olhar do mosaico. O fuste concentra depois a atenção na repetição vertical das secções e nos elementos de artilharia dourados que ligam a decoração aos troféus militares.
Os materiais distinguem vários registos. Na base, o bronze conta episódios; na sala circular, o mosaico introduz alegorias; no topo, Vitória condensa a mensagem numa silhueta reconhecível à distância. Esta organização explica como o monumento comunica a diferentes escalas.
Os quatro relevos: uma história oficial em bronze
Os relevos não são fotografias das guerras. Selecionam protagonistas e episódios para converter acontecimentos complexos em memória pública. Cada um ocupa uma face do pedestal; em conjunto, conduzem do campo de batalha à celebração na capital.
A guerra de 1864: Alexander Calandrelli
Calandrelli representou a campanha contra a Dinamarca e o assalto às fortificações de Dybbøl, conhecidas em alemão como Düppel. A composição reúne figuras, movimento e ações militares numa narrativa contínua. O detalhe mostra como os grupos humanos apresentam a campanha como uma ação coletiva digna de comemoração.

A guerra de 1866: Moritz Schulz
O relevo de Schulz desenvolve a guerra contra a Áustria. A narrativa militar torna-se também representação de hierarquias, lealdades e gestos individuais. Observar os detalhes ajuda a distinguir a construção artística do episódio de uma simples enumeração de datas.

A guerra de 1870–1871: Carl Keil
Keil, cujo primeiro nome também aparece como Karl, realizou o relevo da Guerra Franco-Prussiana. O programa inclui a capitulação de Sedan. Personagens, uniformes e cerimónias apresentam a derrota francesa pela perspetiva dos vencedores; essa perspetiva não deve ser confundida com uma descrição completa do conflito.S3

A entrada das tropas em Berlim: Albert Wolff
O quarto relevo substitui o combate pela receção das tropas vitoriosas em Berlim em junho de 1871. Wolff liga o exército à capital e transforma o regresso dos soldados numa cerimónia de afirmação nacional.

A diversidade de escultores não impede a coerência do programa. As quatro faces apresentam uma sequência comum: campanha, vitória e reconhecimento. As feridas posteriores do bronze impedem, porém, uma leitura idêntica à da inauguração.
O mosaico: quando a história se torna alegoria
Na sala circular sobre o pedestal, o mosaico de vidro desenhado por Anton von Werner e executado pela oficina de Antonio Salviati combina referências históricas e personificações. Germania representa a nação alemã; outras figuras e emblemas convertem relações políticas numa narrativa visual.
A diferença em relação aos relevos importa. A alegoria não mostra apenas pessoas identificáveis ou episódios específicos. Torna visíveis ideias abstratas —nação, ameaça, unidade, triunfo— através de corpos, atributos e símbolos. Para a ler, é preciso perguntar o que significa cada figura no argumento imperial, sem pressupor que toda a imagem corresponde a um facto literal.

Goldelse: Vitória, Borussia e o poder de uma silhueta
A estátua de Friedrich Drake, com cerca de 8,3 metros, é de bronze dourado. As asas e a coroa de louros identificam Vitória; o estandarte com a Cruz de Ferro e o capacete com águia situam a alegoria no imaginário prussiano. A figura combina a vitória clássica com traços de Borussia, personificação da Prússia.
Não é, portanto, um anjo cristão nem uma representação original da paz. A precisão importa porque a familiaridade de uma imagem pode suavizar o seu significado histórico. A alcunha Goldelse pertence à apropriação popular do monumento, mas não apaga a intenção militar da encomenda.
Com o tempo, Goldelse tornou-se também um sinal quotidiano de Berlim. Essa proximidade mostra que o sentido de uma escultura pública não fica para sempre fixado pelos seus promotores.
Porque foi transferida em 1938–1939
O local original em Königsplatz
A coluna foi inaugurada em Königsplatz, a atual Platz der Republik. Diz-se frequentemente que ficava «diante do Reichstag», uma referência útil para a localizar que exige contexto: o atual edifício do Reichstag foi construído depois da inauguração da coluna. A imagem histórica mostra a relação que ambos adquiriram mais tarde, não uma cena de 1873.

A intervenção nazi e a quarta secção
O regime nazi desmontou a coluna e reconstruiu-a no Großer Stern entre 1938 e 1939. A operação fazia parte da reorganização monumental de Berlim associada aos planos de Albert Speer. O monumento deslocou-se cerca de 1,6 quilómetros para oeste e passou a integrar o eixo este-oeste.S4
A transferência acrescentou uma quarta secção de cerca de 6,5 metros e alargou o pedestal. Não foi uma conservação neutra: proporções e localização foram alteradas para reutilizar um símbolo imperial noutro projeto político. A quarta secção não comemora uma quarta guerra de unificação; pertence a essa intervenção posterior.
Depois de 1945: as feridas do monumento
A coluna sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, mas a sua permanência deixou de ser um dado adquirido. Foi proposta a demolição e o significado militar tornou-se objeto de debate. Três relevos foram levados para França; o da guerra contra a Áustria permaneceu em Berlim.
Os regressos de 1984 e 1987 foram associados à reconciliação franco-alemã. Os relevos foram reinstalados conservando a condição fragmentária. A decisão mudou a leitura da base: o dano já não era apenas uma perda a esconder, mas uma parte visível da história.
Não se deve interpretar cada fratura como prova da mesma causa sem documentação. Pode afirmar-se que o programa triunfal original e as consequências do século XX coexistem agora na matéria do monumento. As cenas celebram uma vitória; o seu estado recorda que também foram objeto de disputa.
Tiergarten, Bismarck e a geografia do poder
A localização atual torna a coluna um ponto de referência entre as grandes avenidas que atravessam o parque. As árvores enquadram a silhueta, enquanto a organização viária reforça a sua centralidade. Observá-la sem considerar esses eixos deixa de fora parte da sua história urbanística.
O monumento a Bismarck, também fotografado durante a visita, amplia a leitura dos arredores. Bismarck não é a figura no topo da coluna: o memorial próximo introduz o estadista ligado à unificação entre os heróis e símbolos nacionais do Großer Stern. As duas obras participam na construção monumental da memória prussiana, embora sejam monumentos distintos.
O miradouro, acessível por uma escada de aproximadamente 285 degraus, permite relacionar a coluna com as avenidas e o centro político. Mais do que uma panorâmica, oferece uma leitura de como diferentes épocas organizaram o espaço berlinense. Durante a divisão, o monumento ficou em Berlim Ocidental; depois de 1990 voltou a pertencer a uma capital reunificada.S5
De emblema militar a cenário da vida pública
Celebrações e concentrações em redor da coluna acrescentaram outros usos ao espaço. A Love Parade e os eventos ligados ao orgulho LGBTQ+ pertencem a esta história cultural; o discurso público de Barack Obama em 2008 mostra que o lugar continuou a funcionar como palco político.
Estes usos não apagam a intenção imperial nem a intervenção nazi. Acrescentam uma tensão significativa entre o que o monumento dizia e o que a cidade faz hoje à sua volta. Conservá-lo como documento histórico exige manter legíveis essas diferenças, evitando tanto a celebração acrítica como uma narrativa em que o passado desaparece sob o ícone turístico.
Perguntas frequentes
A Coluna da Vitória foi construída pelos nazis?
Não. Foi inaugurada em 1873. O regime nazi transferiu-a e ampliou-a em 1938–1939.
O que representa a estátua dourada?
Vitória, deusa romana do triunfo, com atributos prussianos que a ligam a Borussia. A alcunha popular é Goldelse.
Porque existem quatro secções para três guerras?
As três originais remetiam para as vitórias de 1864, 1866 e 1870–1871. A quarta foi acrescentada durante a transferência do século XX.
Qual é a altura da Siegessäule?
Aproximadamente 67 metros na configuração atual. A altura original era de cerca de 60,5 metros.
Porque estão danificados alguns relevos?
O seu estado incorpora a guerra e o pós-guerra, incluindo a retirada de três painéis para França e a reinstalação fragmentária nos anos oitenta. Nem toda a perda visível deve ser atribuída automaticamente a um único episódio.
É Património Mundial da UNESCO?
Não. Está protegida como monumento histórico, mas não integra um bem inscrito pela UNESCO.
Fontes e documentação
- S1 Landesdenkmalamt Berlin — Großer Stern mit Siegessäule, Denkmälern und Torhäusern.
- S2 Gedenktafeln in Berlin — Die Berliner Siegessäule.
- S3 Gedenktafeln in Berlin — Die Reliefs: Deutsch-Französischer Krieg von 1870/1871.
- S4 Gedenktafeln in Berlin — Die Umsetzung von 1938/1939.
- S5 visitBerlin — Siegessäule in Berlin.
- S6 UNESCO — Germany: World Heritage properties.



